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A TocA !

 

 (Visão interna da porta de entrada)

 

... Minhas amigas se casaram. Fui convidado para um jantar particular. Elas e eu. São pessoas queridas e fundamentais na minha vida. O apartamento é simplesmente a cara das duas. E elas estão felizes. E eu emocionado. As famílias apóiam, torcem e desejam felicidades para as duas.

E eu estou mais emocionado. Ainda existe amor e respeito do outro lado da janela do meu apartamento. Ainda existem pessoas que se preocupam em somar ao invés de dividir. Os tempos são outros, mas a essência do ser humano que sobrou em poucos hoje em dia ainda é a mesma.

Meus olhos se enchem de lágrimas. Simplesmente estou feliz. Por elas. Por mim. Ninguém disse que seria fácil depois de nove meses. Mas também ninguém disse que mesmo na dor e na perda, existe algo de muito bonito: o caminho natural do homem.

Como me dói ver meu pai com 55 anos e só agora perceber que lhe restam poucos cabelos; só agora conhecer a história dele e saber que naqueles olhos verdes existe um grito desesperado de socorro.

Como me dói ver uma foto da minha mãe aos seis anos e ver que ela um dia foi uma criança com medo de escuro... e ver hoje a mãe guerreira e protetora que ela é.

E como me emociona saber que toda essa dor faz parte da história deles.

E pensar que eu ainda estou só no prólogo da minha história.

Viver é a dor mais incrível, sendo a morte um privilégio para poucos. Muitos vão embora, mas morrer mesmo, só para quem tem dignidade e honestidade para consigo.

Morrer num baile, ao som de Besame Mucho e nos braços da mulher amada, só um foi capaz disso. Uma das almas mais puras que a vida já teve.

Dessa vez eu peço um brinde aos que vão morrer.

 

 

Apenas uma trilha para tudo isso.

 



Escrito por Chico Ribas às 16h11
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No toca disco quebrado um disco riscado do Nick Cave

 

Foi feita uma pesquisa:

 

As épocas que a depressão mais ataca as pessoas são no Natal e no Ano Novo. Consequentemente são as épocas que o número do suicídio aumenta.

Eu nasci no dia primeiro de janeiro.

O que isso tem a ver?

Não sei, mas talvez explique o meu olhar baixo e cheio de lágrimas enquanto eu perambulo pelas noites feito um cachorro sem dono tombando latas de lixo a procura de comida.

E Nick Cave canta uma tal de “Wonderful World”.

Será?



Escrito por Chico Ribas às 02h00
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Legado Cassavetes

 

 

Quando o grande ator e cineasta John Cassavetes morreu eu tinha dois anos, ou seja, nem tinha consciência pra saber quem ele era. Só fui saber dele e de sua importância para o cinema quando eu já estava aqui em São Paulo fazendo teatro.

Não ouso falar muito dele porque ainda sou leigo no seu cinema. É difícil achar seus filmes para alugar, exceto nas “2001” da vida.

Mas eu sou um grande admirador do Nick Cassavetes – seu filho e também ator e cineasta – apesar falarem que o Nick não nem a metade da genialidade do pai.

O primeiro filme que vi do Nick foi “Um ato de coragem” – um filme poderosíssimo e emocionante; Alpha Dog - outro soco no estômago.

Eis que ontem eu assisti o seu “The Notebook – Diário de uma paixão” – baseado no livro de Nicholas Sparks.

O filme poderia ser mais uma simples história de amor e cheia de clichês, mas não é.

O filme é mais que isso. É simplesmente um filme sobre seres humanos e suas idas e vindas perante a vida. Um filme sobre amor, mas muito mais do que o amor de um homem por uma mulher. Um amor pela vida e pelo outro.

Um filme poético e delicado que dilacera a alma. Um filme feito pelos olhos de alguém que é capaz de olhar toda a sinceridade que existe dentro do outro. O olhar de um Cassavetes.



Escrito por Chico Ribas às 19h14
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Morrer ou viver tanto faz

 

Muita gente morrendo nos últimos tempos. Dois aviões caíram, Farrah Fawcett, Michael Jackson... hoje a grande Pina Bausch.

A morte ainda é um assunto muito vivo dentro de mim. Ainda me sinto de luto por aquele avô incrível que tive. E hoje, antes mesmo de saber da Pina Bausch, acordei com a notícia de que a dona Julia Negrão havia morrido nesse final de semana.

A dona Julia é a mãe do autor da Rede Globo, Walther Negrão. Ela morava em Avaré e era uma senhora que eu tinha muito carinho por ela. Eu a chamava de “vó Julinha”. Foi através dela que eu vim parar em São Paulo para estudar teatro na escola Wolf Maya. E foi nessa escola que minha estória começou. Foi lá que eu conheci meu querido Alberto Guzik e através dele Os Satyros... e através dos Satyros conheci amigos incríveis que eu tenho o privilégio de trabalhar. Não poderia citar o nome de todos esses amigos, são muitos e não seria justo esquecer de alguém. A minha vida toda está ali na praça Roosevelt, em cada parceria que eu criei na calçada da praça.

Todo fim de ano eu ia visitar a Dona Julia, e sempre levava algum presentinho para ela. Uma senhorinha muito fofa.

Esse ano para mim, o céu se tornou um lugar mais especial!

 



Escrito por Chico Ribas às 17h29
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... é quando você se sente sozinho, sem nenhum lugar pra correr e pedir ajuda, sem aquela mulher que você tanto amou e simplesmente te deixou em uma tarde de outono.

Então você abre um livro do Caio Fernando Abreu em qualquer página e lê, como se fosse a sua oração daquele dia.

Você pensa que talvez puxar o gatilho dentro da boca resolva tudo, mas não é tão fácil assim. Você primeiro precisa comprar uma arma.

E de frente pra janela você pensa na mulher do seu melhor amigo... e tudo isso faz você pegar uma folha em branco e escrever uma história proibida sobre a culpa. Mas as palavras não conseguem se organizar em seu pensamento. Então você simplesmente pega uma guitarra e sem se dar conta você toca um blues. O blues é como o amor, não tem que pensar, tem que sentir.

E isso tudo ali com você, naquela mesma tarde de outono.



Escrito por Chico Ribas às 14h48
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